
Eu quero comprar uma passagem para um lugar imaginário e ingressar no primeiro trem das onze. Quero viajar para bem longe - nem que por um ou dois segundos - e poder me sentir bem comigo mesma, feliz, em paz. Não é nada pessoal, é que esse mundo é muito pequeno para mim, meus pensamentos não cabem, não se assentam, querem fugir. Acordar todos os dias e vestir nos pés uma meia de cada par é estranho por aqui, mas vai que descubro que as pessoas de outro lugar apreciam a minha criatividade e ousadia? Eu quero é voltar voando para casa, para onde eu vim, porque não sou capaz de me adaptar à sociedade da Terra. Ela me sufoca, me reprime, corta minhas asas, sabe? E é tão cruel olhar pela janela e perceber que até os semáforos estão piscando vermelho para mim… Pode ser à pé, de ônibus, avião, nave espacial, à cavalo, ou pela mente, mesmo; só quero sair um pouco daqui, inclusive de dentro de mim. Eu quero conseguir ignorar os olhares de reprovação que me perseguem, querido, quero parar de usar “querido” ou “amor” como vocativo em todos os meus textos como se eu tivesse algum amor por aí, me esperando, e ser forte o suficiente para adotar o lema do “dane-se” na minha vida. Sério, quero tanto que estou até treinando: não gosta de meias trocadas, fora de moda? Dane-se. Fica aí com as suas opiniões ignorantes e me deixe comprar minha passagem, hoje, agora. Só vou deixar um recado amassado sobre a cômoda da cozinha: tô de saída.
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